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sábado, 30 de agosto de 2008

Romantic Trip II

Tempo: - Se ela te fala assim com tantos rodeios, é pra te seduzir e te ver buscando o sentido daquilo que você ouviria displicentemente. Se ela te fosse direta, você a rejeitaria.

Homem: - Eu sei, jogos de amor são pra se jogar. Ah, por favor, não vem me explicar o que eu já sei. Eu francamente já não quero nem saber de quem não vai porque tem medo de sofrer. Nossas idéias são do mesmo pano. Dois bicudos não se beijam. Até a vista, eu vou andando.

Tempo: - Senta aqui, espera que eu não terminei. Não tem mistério, não, é só teu coração que não te deixa amar... Sem correr, bem devagar... Não se afobe, não, que nada é pra já. O amor não tem pressa, ele sabe esperar em silêncio. Saber amar é saber deixar alguém te amar.

Homem: - Tempo, tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio. Tempo, tempo, tempo, tempo, vou te fazer um pedido, entro num acordo contigo. Ouve bem o que eu te digo: peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso, quando o tempo for propício, de modo que o meu espírito ganhe um brilho definido.



Romantic Trip (28/12/2005)


terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Dos poetas

"Marselha, julho de 1844

Como se Marselha tivesse querido dar-lhe razões para justificar sua antipatia, tudo começou a andar mal desde que pisou a terra marselhesa. O Hotel Montmorency era um horror, com pulgas que a fizeram lembrar de sua chegada ao Peru, em setembro de 1833, pelo porto de Islay, onde na primeira noite, na casa de dom Justo, o administrador dos Correios, pensou que morreria com as picadas dessas alimárias que dela se alimentaram sem piedade.
No dia seguinte foi para uma pousada no centro de Marselha, dirigida por uma família espanhola; deram-lhe um quarto simples, amplo, e não a proibiram de receber ali grupos de trabalhadores. O poeta-pedreiro Charles Poncy, autor do hino da União Operária, com quem Flora contava para que a levasse em suas reuniões com os trabalhadores marselheses, fora a Argel, deixando-lhe um bilhete: estava exausto, seus nervos e músculos necessitavam de repouso. O que se podia esperar dos poetas? Eram uns monstros de egoísmo, cegos e surdos à sorte do próximo, uns narcisos enfeitiçados pelos sofrimentos que inventavam para poder cantá-los. Você, Flora, talvez devesse considerar a necessidade de que na futura União Operária não só se proibisse o dinheiro, também os poetas, como fez Platão na sua República"

Extraído de O paraíso na outra esquina, de Mario Vargas Llosa.



Imagem: André Koehne

Ah, se Flora Tristán e Platão tivessem conhecido Vinicius de Moraes, assim como ele está aqui no outro post: por meio de uma poesia sua recitada por sua própria voz; não cometeriam tão grave erro de pensar no fim dos poetas. Não ele, o filósofo, que sempre tentou entender o mundo, nem ela, a revolucionária, que viveu para tentar salvá-lo. Eles não o fariam.

Se ainda ficassem com alguma dúvida mesmo após ouvirem coisas como O dia da criação, a dirimiriam escutando qualquer canção cantada pela voz bêbada do Poetinha. Como esta abaixo.

Música e poesia para aproveitar as férias! (Ah, e assistam a Juno).

Saravá!

Vinicius de Moraes - Canto de Ossanha

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