segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Pátria

Foto: Wander Roberto - COB


"Eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria"
Caetano Veloso

Há cerca de dez anos, numa academia aqui no sul do sul do Brasil, Satolep, alguns argentinos vieram dividir com brasileiros o prazer de aprender a arte da capoeira. Os nossos brincavam, dentro e fora dos treinamentos. Já os hermanos surpreendiam por sua gana. Os olhos deles vidrados nos nossos, no afã de antever cada golpe que viria.

A prática do esporte sempre foi uma grande diversão para nós e os poucos que não estavam ali pelas risadas, mas para aprimorar sua técnica e seus conhecimentos, perseveraram e estão aí até hoje. Com o tempo, a tal "garra argentina" fez seus efeitos e acabamos aprendendo com eles. Isso mesmo. Brasileiros vendo argentinos jogar capoeira, prática de origem cem por cento tupiniquim.

É claro que eles também sempre estiveram com os olhos voltados para cá, mas esse casamento de culturas só fez acrescentar elementos interessantes para ambos os lados.

Corta.

Verão 2008. Enquanto todos se divertiam com os sons carnavalescos (?) da praia do Cerro Chato, em Santa Tereza, Uruguai, fomos conferir o que poderia surgir de bom na “periferia” daquele barulho todo. Com uma lanterna, caminhamos pelas imediações, até conseguir escutar o som de um violão, que foi nos atraindo, como cheiro de pão quentinho. Nos aproximamos. Alguns homens e mulheres estavam sentados em círculo, em frente a uma fogueira. Logo descobriríamos que eram os salva-vidas do lugar. Vidas, não sei, mas salvaram nossa noite. Nos apresentamos todos, compartilhamos os tragos. Brasileiros, argentinos, mexicanos e uruguaios dividindo o mesmo fogo, a mesma música.

Corta.

Tudo isso para dizer que não sou patriota. Não tenho orgulho de ser brasileiro. Amo algumas virtudes que só este país tem. Assim como admiro muitas qualidades de outros países, que só descobri conhecendo-os ou conhecendo estrangeiros.

Talvez por isso esteja nem aí para mais uma olimpíada com meia dúzia de medalhas.

E o atleta, por que corre? Por que nada, por que salta? Por que quer bater a si mesmo? Pela pátria? Bom, é para tentar entender essa relação entre esforço e limite que assisto aos jogos. Indiferente às bandeiras. Talvez por enxergar beleza na superação, talvez por procurar metáforas da vida, como disse um amigo churrasqueiro.


"Pátria minha - Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.""

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Um comentário:

Otto disse...

Mas na época da Copa do Mundo tu pinta a calçada da tua casa de verde amarelo, né sem vergonha!! Brasileiro só é patriota na Copa do Mundo...Americano que é exemplo de patriotismo. Chegam a ser chatos até de tanto amor a bandeira Red, White and Blue. Já o nosso green and yellow está mais enferrujado que medalha de bronze.