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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

São crianças como você


Me pediram para falar sobre juventude. Me lembrei do mestre Nelson Rodrigues, que falou, numa entrevista: “O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho”. É, a verdade é que jovem é um bicho chato. Não sabe de coisa nenhuma e, ainda por cima, acha que sabe.

Quando crianças, somos os maiores fãs dos nossos pais. Olhamos para eles com admiração e tudo o que eles dizem é verdade incontestável, afinal, não conhecemos nada deste mundo e os pais detêm o “poder da sapiência”.

Aos poucos, você percebe que seu pai e sua mãe não são perfeitos. É um choque. Descobrir que seu pai não é o melhor jogador de futebol das peladas do trabalho e que sua mãe não é a pessoa que mais entende de matemática do mundo é duro. Você vê que os seus pais já não são tão maiores, fisicamente mesmo. Que, em última instância, já não podem mais te segurar se você quiser ir a algum lugar. Porém, eles ainda nos sustentam e nos momentos de raiva este acaba sendo o único elo que nos une. Os amores são eternos, os prazeres são para ontem, a disposição é infinita. Há que se pesar que se não fosse essa ingenuidade, essa espontaneidade do ato impensado, existiria... o rock, por exemplo? A rebeldia tem faixa etária.

O problema é que nos achamos invencíveis, não há droga que nos derrube, não há idéia da qual não possamos discordar. “Aos 18, o sujeito não sabe dizer um 'boa noite' a uma mulher”, disse o Nelson também. No momento em que você percebe que seus pais não são heróis, começa a achar que você que é. Daí vem essa vontade contida de subjugar os coroas. “A única coisa que eles têm é a grana. O dia em que eu tiver a minha, vou-me embora desta casa!”, afirma o adolescente mala.

Até que este dia chega. E com ele a resignação. Você já não quer mais fugir de casa. Na real, se der para teu salário ajudar nas despesas, você já ficaria satisfeito. Os pais voltam a ser heróis, mas num outro sentido. Percebe-se como eles sempre foram carinhosos, como souberam impor limites de uma maneira legal. Eles têm defeitos, é claro, contudo fizeram o melhor que conseguiram, às vezes um tanto perdidos em meio à tamanha profusão de atitudes e ao ritmo acelerado do filho jovem.

Desse dia em diante, os pais passam a ser amigos. Os melhores. Você liga para pedir um conselho na hora de adquirir o seu primeiro apartamento, quando não sabe como lidar com um conflito no trabalho... ou quando quer apenas matar a saudade do antigo convívio. Você quer vê-los bem, felizes.

Depois, com o tempo, a gente vai se tornando um pouco pais dos nossos pais. Eles já não têm a mesma saúde de antes, precisam de nosso auxílio. Mas eles têm a tal da experiência. Passaram por todas essas fases antes de nós. E nos dirão o que vem pela frente. Ou ao menos tentarão. Como fizeram a vida inteira, abrindo caminho para que os filhos transitassem por uma via mais limpa. Sorte que um dia nos ligamos disso. Maturidade, talvez. Entender aquilo que Sócrates dizia, que a sabedoria começa com o reconhecimento da nossa própria ignorância.

Sempre que venho passar uma temporada na casa de meus pais, percebo como é penoso readaptar-me à vida que outrora levava. Pensei nisso tudo enquanto via minha luminária fritar na minha frente, semana passada...

Acontece que, depois que fui morar fora, meu quarto passou a ficar com “o que sobra” da casa. Conseqüentemente, ele tem a pior iluminação: uma fluorescente compacta que deve ter 1W de potência, porque mal consigo diferenciar uma meia verde de uma azul. Como eu pretendia ler, peguei uma luminária - dessas parecidas com a do logo da Pixar - que, não à toa, depois eu descobriria, estava láá no cantinho da estante. Sem pestanejar, coloquei-a na tomada 220V - voltagem de Pelotas -, deitei em minha cama e retomei meu Hunter Thompson. Narinas entupidas, como sempre, não senti o cheiro de queimado. Porém, duas páginas depois, veio o barulho. Era como se ouvisse um enxame de abelhas atrás da minha cabeça. Virei-me em direção à lâmpada e, quando enxerguei a fumaça, saltei para evitar que chamas surgissem no recinto. A luminária era 110V! Se não me engano, a comprei aqui em Pelotas, em férias anteriores. 110V, porque queria levá-la para Porto Alegre, coisa que nunca fiz.

Meus pais sempre tentaram me dizer - receosos de meterem-se nas decisões de um adolescente rebelde e respeitosos, como sempre foram:

- Meu filho, tu tens certeza que queres fazer Engenharia? É que nós não vemos tu demonstrares interesse em mexer com esses equipamentos elétricos e mecânicos... - ouvi uma vez.

Com 18 anos, eu era uma besta mesmo.