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terça-feira, 16 de outubro de 2007

Para começo de conversa

Dentre tantas coisas que li e ouvi sobre o Tropa de Elite e os assuntos suscitados pelo filme, gostei da coluna do Scliar na ZH de hoje (16/10). Ajudou a dar uma organizada nas idéias. Vou reproduzir abaixo. Amanhã quero comentar alguma coisa. Já tem tanta gente falando bobagens sobre o assunto por aí... Que diferença vai fazer o meu bloguinho falar mais uma?


Moacyr Scliar

A questão da violência: onde, mesmo, está a verdade?

A polêmica em torno ao filme Tropa de Elite está longe de ser um fenômeno isolado. Na semana antes da estréia o apresentador de tevê Luciano Huck, que teve seu Rolex roubado durante um assalto na capital paulista, escreveu para a Folha de S. Paulo um artigo em que, invocando sua condição de cidadão brasileiro honesto e em dia com os impostos, protestava contra a insegurança. Choveram cartas, em sua imensa maioria criticando-o furiosamente: Luciano Huck seria um jovem rico e alienado que finalmente descobrira a realidade brasileira. Esta crítica serviu de tema para um outro artigo, este do escritor Ferréz, originário da periferia, segundo o qual, no final tudo deu certo: o apresentador escapou com vida, o assaltante ganhou um relógio. Como se pode imaginar, o texto por sua vez motivou um dilúvio de correspondência desta vez defendendo Luciano Huck e atacando Ferréz.

Durante muito tempo a discussão sobre violência no Brasil teve conotação política. Basicamente havia duas correntes que, simplificando muito, poderíamos chamar de direita e de esquerda. Para a direita, violência era caso de polícia e só terminaria com a repressão, um argumento que ganhou força quando o prefeito republicano de Nova York, Rudolph Giuliani, criou a estratégia da "tolerância zero", ou seja a punição de qualquer transgressão, por menor que fosse (e a criminalidade realmente diminuiu ali). Para a esquerda, violência era questão social e seria uma forma de distribuição de renda à la Robin Hood - roubar dos ricos para dar aos pobres. Esta visão proporcionava uma visão aparentemente simples e lógica. Mas só aparentemente. Aos poucos foi ficando claro que a coisa era mais complicada do que parecia, e o problema da droga mostra-o bem; o tráfico comanda o crime na favela, mas o tráfico é alimentado pela mesma classe média que é assaltada e se queixa da violência. O crime tem, pois, vários fatores, inclusive psicológicos, e foi baseado nesta "face oculta" que Rubem Fonseca construiu sua ficção original e que precedeu Tropa de Elite e também Cidade de Deus. Que Rubem Fonseca, baseado em grande parte em sua experiência como comissário de polícia, tinha acertado em cheio, demonstra-o o número de seguidores que teve entre jovens ficcionistas. Numa época, muitos dos concorrentes a prêmios literários (e fui jurado em vários) claramente imitavam Fonseca.

A discussão se complicou, ideologia ficou um assunto confuso (o que é mesmo esquerda, o que é direita?), mas isto não implica a perda dos referenciais. Desigualdade continua existindo, injustiça social também. Ainda que a esquerda tenha cometido erros grosseiros, isto não quer dizer que as idéias de direita representem a solução. A verdade, como sempre, está no meio. Mas não no meio da testa perfurada por uma bala. Para evitar que isto aconteça, temos de parar de bater boca e ir em busca de soluções práticas, racionais e sobretudo humanas.

Trapo de Elite


e.li.te

(Houaiss) s.f. 1. O melhor ou mais valorizado num grupo social. 2. Minoria que domina um grupo. Contrário de escória.
(Priberam) s.f. 1. O que há de melhor numa sociedade ou num grupo. 2. A flor.


Esta palavrinha andava se revirando dentro do meu míni Houaiss, na estante. Resolvi levá-la para tomar um ar aqui fora.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Vida Anormal III

Na Folha de hoje (08/10), a já famigerada resposta ao desabafo de Huck. A discussão é boa e vai longe.
O cara escreve muito bem, porém... "e sempre tem um porém"... Bom, melhor conferir abaixo e tirar suas conclusões:


TENDÊNCIAS/DEBATES

Pensamentos de um "correria"

FERRÉZ


"Ele não terá homenagem póstuma se falhar. Pensa: "Como alguém usa no braço algo que dá pra comprar várias casas na quebrada?"


ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.
Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.
Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.
O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.
Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.
Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal.
Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.
Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.
Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado?
Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.
Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não!
Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.
Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora.
Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.
Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.
A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!
Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.
Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.
No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.
Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.



REGINALDO FERREIRA DA SILVA , 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de "Capão Pecado", romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de "Ninguém é Inocente em São Paulo", entre outras obras. Leia o artigo de Luciano Huck em www.folha.com.br/072801

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Vida Anormal

Bá, Luciano, te assaltaram, cara?! Fiquei chocado ao ver teu desabafo. Que absurdo! E foi nos Jardins, ainda por cima. Até nos Jardins... Logo aí, onde as meninas gostam de rap e de happy end. Que absurdo! Ninguém respeita mais ninguém neste país. Não respeitam nem a ti, que é um cara querido pelas multidões, que é um herói nacional, que faz tanto por nossa pátria. Nos Jardins, cara... Quando li, me assustei, cheguei a levar a mão ao meu Rolécs, para ver se ainda estava comigo.

Vamos ter que tomar providências. Isso não pode ficar assim! Vamos chamar o comandante Nascimento, sim. Chamemos os soldados americanos. Chamem o Super-Homem, o Chapolin Colorado! Temos que agir! É agora ou nunca! É a nossa super chance!


E tem mais e mais e mais e mais...