quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Os Dias dos Finados - Fernando Bonassi

ACORDA ÀS quatro horas para que as horas dêem tempo. As horas são sempre as mesmas. As mesmas horas medidas, mas tantas são as providências que às tontas tem que implorar num período de esquecimento, que mal se lembra de tudo que deseja.
É muito. E tudo é muito, muito pouco. Dorme à meia-noite... ou seria meio-dia? A sensação é sempre a de ter esmorecido, esquecido de deitar, mas de ter morrido, acabado no enfado repetido dessa morte natural. Tem sempre um movimento de erguer-se, debater-se e espadanar como um bicho que desde criança não conseguisse deitar: os olhos fundos, os pés redondos, um joão-bobo de se esfolar por esse salário salafrário que pagam aos otários como se fossem relógios aos quais se dá corda para enforcar.
O despertador até que toca, mas onde se toca dá essa alergia, uma coceira que se confunde com alegria, até porque, se parar para chorar...
Ele diz que cresceu para parar com isso, mas isso é o que fica lacrimejando por baixo de cada compromisso comprido e chato.
Cumpre todos os micos. Paga todos os patos. Nem se ocupa da lisura de cada trato ou o que esses cacos deixam de rastro por baixo dos tapetes encaroçados de interesses obscuros. É claro que tem alguma higiene, ainda que a escova tenha poucas cerdas, de acordo com seus dentes. Também escova o cabelo nas mesmas circunstâncias dessa relação minoritária entre uma coisa e outra. Misturado à poeira da multidão usa condução para ser levado. Bate o seu cartão com o enfado da resignação. O coração dentro do peito formula uma questão: sim ou não?"Sim ou não?" Ele pergunta é para vocês!
Eu é que não vou descrever o que cada um deve dar de comer ou engolir para cuspir numa terra de cornos pregados nas cruzes como esta. E esse é aquele que avança para o seu posto com um sorriso lavado no rosto. Sorri a esmo, mesmo sentindo, ou mentindo, o que sente. É tido como simpático ou apático em desacordo com as circunstâncias.
As circunstâncias parecem iguais para todos os envolvidos, exceto que os muito vivos são os primeiros que se fingem de mortos para não serem contados entre os cadáveres ensacados e mandados para casa. Não é um herói de guerra ou, se é, é um anti-herói de farra; afinal, sua desforra é fazer de conta que não é com ele, já que esse monte de problema é um problema de todo mundo.
Todo mundo não pode ser herói, sob pena de transformarem-se em homens comuns; alguém ou algo que a maioria acha que nem é...
Todos têm os seus esquemas para resolver, ou atrapalhar... "Trabalha quem quer sobreviver!", como se tudo se resumisse em realizar-se reduzido a isso: um chouriço com o sangue dos outros.
Por um pedaço, ou boquinha, dessas, é que labuta para os outros filhos da mãe. Estes são sempre uns poucos, mas cobram reverências exponenciais para cada centavo que oferecem feito esmola, ou penitência.
Também passa mal consigo. Já esteve no hospital com uma dor que não sabia de onde vinha e que teimava apesar dos comprimidos. Fingiu que dor não era com ele e não se mexeu com a ferida. Ficou quieto para continuar como estava. Em pouco tempo, não sentia mais nada. Como isso também não lhe doía nas orelhas, esquecia que morria a cada passo dado em direção ao cadafalso. Consumia o suficiente para defecar. A propósito do que tinha na cabeça, não a perdia de lugar parando para pensar...
Existia.
E era um existencialismo tão intenso que mal fazia outra coisa que não fosse ficar plantado e suando no sol. Suava entre bicas nas nádegas porque achava que a dádiva da vida era sim um bem supremo e bem que devia ser bem guardado. Bem ou mal era um bem que ele achou por bem vender a quem quisesse pagar...
Acontece que havia mais força de trabalho para vender no supermercado, do que ilusão para comprar nos meios de comunicação... Conclusão: pela lei da oferta e da procura todos estão presos às suas próprias desventuras, como propagandas de mercadorias.
É quase meia-noite... ou seria meio-dia... quando deita... e não descansa...
A sensação é sempre a de ter obrigação de acordar à qualquer momento, já que tem pouco tempo e o pouco que tem nem é dele...
Amanhã levantará de novo, mas não consta que estará acordado...
Desacordado também não.
De todo modo, desperto entre os cegos, que medo será melhor para o covarde?

Um comentário:

jo disse...

aaaaaaaaaaa negão!
mto grande esses teus textos, dá preguiça! hahahha
Bjo p/ tu